Por Allyne Bentes.
Criada em 2024, a primeira brigada exclusivamente feminina enfrenta incêndios, leva educação ambiental às escolas e amplia a participação das mulheres na gestão dos territórios. Em outubro, parte delas embarca para um intercâmbio na Inglaterra e, em novembro, acompanhará a COP 31, na Turquia.
É na Comunidade Indígena Sucuba, região do Alto Cauamé, a cerca de 57 quilômetros de Boa Vista, que está localizada a base da primeira brigada feminina indígena de Roraima. Criada em 2024, a Pataxibas reúne mulheres dos povos Macuxi e Wapichana e atua na prevenção e no combate aos incêndios florestais, mas o trabalho começa antes de o fogo se espalhar. A brigada também realiza ações de educação ambiental, orientação às comunidades e manejo integrado do fogo.
O nome Pataxibas carrega uma referência às abelhas, que vivem em diferentes pontos e se reúnem para formar suas colmeias. A ideia ajuda a explicar uma característica da brigada: embora exista uma base na Sucuba, suas integrantes não estão restritas a um único território.
A história da brigada começou quando mulheres da Comunidade Sucuba tiveram a possibilidade de participar de uma formação técnica para brigadistas. Marivalda Tomás, uma das primeiras integrantes da Pataxibas, lembra que nunca tinha ouvido falar de uma brigada formada somente por mulheres em Roraima. Quando soube que havia uma capacitação e que a região com o maior número de interessadas poderia se tornar a base, decidiu participar.
“Para mim, foi um prazer quando me colocaram no grupo da comunidade que estava precisando de mulheres indígenas para ser brigadistas. Foi bem importante, porque eu nunca tinha ouvido falar que tinha brigadistas mulheres aqui no estado de Roraima”, lembra.
A formação reuniu 12 mulheres pioneiras, sendo dez da Comunidade Indígena Sucuba e duas de outras comunidades. A partir dali, a iniciativa começou a crescer e a se espalhar para outras regiões. Em 2025, o Conselho Indígena de Roraima (CIR) registrou a atuação das Pataxibas em comunidades das regiões Wai Wai, Tabaio, Surumu e Murupu, ampliando a proposta para além da base da Comunidade Sucuba.
A coordenadora das brigadas, Ana Paula Levi, explica que a Pataxibas funciona como uma rede. Quando uma mulher de outra comunidade se forma, ela passa a integrar esse movimento.
“Ela não fica só na sede, na região Sucuba, mas onde tem uma mulher se formando, tem uma Pataxiba.”
Trabalho de prevenção aos incêndios
A prevenção aparece de diferentes formas. As brigadistas fazem queima prescrita, técnica utilizada para reduzir a quantidade de vegetação seca que pode servir de combustível para incêndios maiores. Também orientam sobre queimadas para o preparo de roças e a renovação de pastagens, além de desenvolverem atividades de educação ambiental em escolas e comunidades. É uma atuação que combina conhecimento técnico e práticas que já fazem parte da relação dos povos indígenas com o território.
Para Sineia do Vale, coordenadora do Departamento de Gestão Territorial, Ambiental e Mudanças Climáticas (DGTAMC) do CIR, a criação da brigada surgiu justamente da necessidade de ampliar a participação das mulheres nessas ações.
“As Brigadas Pataxibas nascem no momento em que a gente viu a necessidade de ter as mulheres envolvidas, principalmente no tema da sensibilização, também de fazer educação ambiental e todo esse trabalho que antecipa o combate”, destaca.
As brigadistas também são preparadas para atuar diretamente no fogo. A formação técnica é realizada com o apoio do Prevfogo, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), e é combinada aos conhecimentos tradicionais sobre o uso do fogo nos territórios indígenas.
“O fogo é o nosso velho amigo, sempre dos povos indígenas nesse trajeto que nós temos de trabalhar com a terra, de trabalhar com a natureza”, explica Sineia.
Após a primeira formação, os planos de Elilzamar Wilson, de 37 anos, mudaram. Chefe de esquadrão e integrante da brigada há quase dois anos, ela conta que voltou da formação pensando não apenas em como combater as chamas, mas principalmente em como evitar que elas se transformassem em incêndios de grandes proporções.
“A gente fez o curso. Quando nós voltamos, a nossa visão foi totalmente diferente. Foi trabalhar na prevenção da nossa comunidade”, explica.
Na prática, o trabalho exige preparo físico, conhecimento do território e capacidade de tomar decisões em situações de risco. Como chefe de esquadrão, Elilzamar é responsável por organizar a equipe durante os combates e garantir que as brigadistas estejam protegidas. Quando surge uma queimada, ela reúne as mulheres, organiza a ação e tenta manter o equilíbrio da equipe.
“Vai ter uma queimada, a gente tem que sempre organizar, sentar, conversar e manter o equilíbrio sempre”, afirma a chefe de brigada.
Atuação da brigada diante da crise climática
O trabalho das Pataxibas acontece em um cenário em que as mudanças climáticas tornam a prevenção cada vez mais necessária. Em 2026, a Região Norte registrou 28.282 focos de queimadas até setembro, 41% a mais que no mesmo período de 2025, segundo dados do programa de monitoramento de queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O cenário foi associado ao El Niño, fenômeno que favorece condições mais quentes e secas em partes da região.
O fogo também tem atingido os territórios indígenas. Dados do Monitor do Fogo, do MapBiomas, apontam que 2.195.562 hectares de terras indígenas foram queimados em 2025. Entre as terras indígenas mais afetadas estavam a Raposa Serra do Sol, com 379.466 hectares atingidos; o Parque do Araguaia, com 368.454 hectares; e o Parque do Tumucumaque, com 221.799 hectares.
Em Roraima, a mudança no regime de chuvas já é percebida pelas comunidades. Sineia afirma que o período de chuvas terminou mais cedo e que a seca começa a afetar a disponibilidade de água, as roças e a criação de animais.
É nesse ponto que o trabalho das brigadistas ultrapassa o combate a incêndios. Nas comunidades, elas conversam com lideranças sobre o período adequado para o uso do fogo, orientam sobre prevenção e ajudam a pensar em estratégias para enfrentar a estiagem. Nas escolas, levam o assunto para as crianças. No campo, atuam no combate e no manejo do fogo.
De Sucuba para o mundo
Antes de carregar a bomba costal, Marivalda Tomás carrega também uma câmera. No meio do combate ao fogo, ela alterna entre o equipamento usado pelas brigadistas e o celular, com o qual registra o trabalho das mulheres da Brigada Pataxibas. Aos 37 anos, moradora da Comunidade Indígena Sucuba, na região do Alto Cauamé, ela encontrou uma maneira de juntar duas atividades que fazem parte da sua rotina: ser brigadista e comunicadora.
“Eu, além de ser brigadista, sou comunicadora. Eu faço o meu trabalho no campo, mas também tem um momento que eu tô ali registrando”, conta.
Em setembro de 2025, Marivalda já havia participado de uma formação em Sistema de Informação Geográfica (SIG), voltada ao mapeamento de áreas queimadas em terras indígenas. O curso ensinou às brigadistas a utilizar ferramentas tecnológicas para monitorar o território e compreender onde e como o fogo está ocorrendo.
Marivalda é uma das Pataxibas que devem viajar em outubro para a Inglaterra, onde participarão de um intercâmbio de duas semanas, com atividades na Universidade de Oxford. Entre os conteúdos previstos está o uso de Sistemas de Informação Geográfica e ferramentas de mapeamento.
Para Marivalda, a viagem é resultado de um trabalho que começou dentro da própria comunidade.
“Ser escolhida para ir lá representar o nosso estado de Roraima é muito importante, porque é fruto do nosso trabalho que fazemos na comunidade e das ações que fazemos em outras comunidades e em outras regiões.”
A formação também deve dar continuidade ao que elas já começaram a aprender no estado: monitorar as áreas, elaborar mapas e identificar os locais onde o fogo pode ou não ser utilizado. A expectativa é que o conhecimento adquirido retorne às comunidades pelas próprias mulheres.
“Então, a gente vai dar continuidade nesse curso que a gente já começou a fazer aqui.”
Depois da Inglaterra, o caminho segue para a Turquia. As Pataxibas receberam apoio para participar da COP 31, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que será realizada em Antalya, entre 9 e 20 de novembro de 2026. A programação da conferência inclui espaços dedicados à participação dos povos indígenas e à discussão sobre adaptação e enfrentamento da crise climática.
Para Sineia, a presença das brigadistas nesses espaços representa a possibilidade de levar para uma discussão internacional uma experiência construída no território.
“O nome das Pataxibas tem sido levado em todo lugar que a gente vai falar dos planos de adaptação, dos planos de gestão e de toda a gestão do território, principalmente no tema de clima.”
O intercâmbio e a COP 31 não encerram a história das Pataxibas. Ao contrário, são uma extensão de um trabalho que continua sendo desenvolvido no território e que se torna referência para o mundo.
A sede oficial da Brigada Pataxibas já está sendo construída na Comunidade Sucuba. As obras começaram em setembro. Enquanto isso, as mulheres seguem atuando onde são chamadas, formando novas brigadistas e levando para outras comunidades o conhecimento adquirido.
Enquanto o dia do intercâmbio não chega, Marivalda divide o trabalho entre a bomba costal e a câmera fotográfica, registrando as ações de preservação do território. Elilzamar segue organizando as equipes, e Palloma, por enquanto, acompanha as amigas de fora, com a possibilidade de voltar quando a filha estiver maior. A brigada continua sendo formada não apenas pelas mulheres que conseguem permanecer, mas também por aquelas que abriram caminho e continuam sendo exemplos de força e coragem.
Para Marivalda, a mensagem para quem ainda pensa que esse trabalho não é lugar para uma mulher é simples:
“Nós mulheres, a gente tem capacidade, a gente consegue. Então, a gente pode estar em qualquer lugar que a gente quiser.”
Protagonismo que resiste e supera desafios
A presença feminina no combate aos incêndios ainda é pequena. Segundo dados do Ibama divulgados em 2026, 160 dos 2.600 brigadistas contratados pelo Prevfogo em 2025 eram mulheres, o equivalente a 6,15% do total. Em 2024, eram 108 mulheres entre 2.228 brigadistas; em 2023, 82 entre 2.110. Somados os três anos, foram 350 mulheres entre 6.938 profissionais contratados.
É nesse cenário que a existência de uma brigada formada por mulheres indígenas ganha outro significado. Para quem está dentro dela, não se trata apenas de ocupar uma função tradicionalmente associada aos homens, mas de construir condições para que outras mulheres também possam permanecer na atividade, algo que, infelizmente, nem todas conseguem.
A jornada dupla de trabalho, a dificuldade de acesso a recursos financeiros, a baixa representatividade na área, a falta de incentivo familiar e a ausência de uma rede de apoio estão entre os principais motivos que levam as mulheres a desistir de atuar como brigadistas ou até mesmo a não tentar ingressar na atividade.
Palloma Barros, de 25 anos, acompanhava o trabalho das Pataxibas desde 2025 e esperava participar do curso para se tornar brigadista. Tinha vontade, acompanhava as ações e começou a se imaginar dentro da equipe. Mas, por ser mãe de uma menina pequena, percebeu que não conseguiria se ausentar de casa por períodos prolongados.
“Eu gostava muito, estava bem empolgada em ser brigadista, mas o que me impossibilita é a questão da família mesmo, por eu ter uma filha pequena.”
Para participar da formação, Palloma teria de passar uma semana fora de casa. A possibilidade de deixar a filha por esse período fez com que desistisse, pelo menos por enquanto.
“Talvez quando minha filha tiver um pouco maior, menos dependente...”, diz, deixando aberta a possibilidade de voltar.
A experiência de Palloma não é isolada. Entre as Pataxibas, a maternidade aparece como uma das razões que levam algumas mulheres a deixar a atividade. Como destaca Marivalda:
“A gente vai para o campo e, mesmo você estando lá, a cabeça [fica] pensando na família. Então, muitas vezes, acabam desistindo justamente por causa disso.”
Elilzamar conhece essa dificuldade de perto. Grande parte das integrantes são mães. Segundo ela, uma das principais necessidades da brigada é ter uma fonte de renda regular que permita às mulheres permanecerem na atividade e, quando necessário, pagar alguém para cuidar dos filhos.
“Eu acho que a gente teria que ter um valor fixo todos os meses para elas poderem se manter.”
Hoje, parte do trabalho é sustentada por parcerias e bolsas. Segundo Sineia, a brigada recebe apoio principalmente da Rainforest Foundation, além do Fundo Casa e do Podáali, entre outros parceiros. As mulheres também contam com equipamentos para as ações de prevenção e combate.
Há ainda problemas mais básicos. Para Marivalda, o transporte é uma das principais dificuldades para levar os equipamentos até outras regiões.
“Às vezes não tem [transporte]. Às vezes a gente tem a nossa moto mesmo, a gente pega, coloca os equipamentos e a gente vai embora.”
A falta de estrutura não apaga o significado que a atividade adquiriu para elas. Elilzamar fala sobre a sensação de vestir a farda depois de passar pela formação e compreender que o trabalho tem relação direta com a proteção do lugar onde vive.
“Depois que você veste uma farda, que você faz a capacitação, que você olha ao seu redor e vê que a natureza precisa de você, que você é um guardião da natureza, isso é muito bom”, explica Elilzamar.
Revisão: Helena Leocadio - ASCOM CIR
Fotos: Maciel Macuxi - ASCOM CIR