Em meio à classificação de 21 terras indígenas com seca grave, sistemas de abastecimento de água implementados pelo CIR beneficiam mais de 300 pessoas nas comunidades Serra do Truaru e Macaíba

Por Allyne Bentes.

A seca que atinge Roraima tem afetado o cotidiano de comunidades indígenas, com impactos no acesso à água, na agricultura e na criação de animais. Na região Murupu, onde estão as comunidades Serra do Truaru e Macaíba, a forte seca já compromete a produção de alimentos e preocupa as famílias que dependem do cultivo de sementes tradicionais para o consumo e a geração de renda.

Na Serra do Truaru, a agricultura sustentável foi uma das principais áreas afetadas pela seca. As lideranças registraram a perda de 50 hectares da safra de milho plantada em junho e colhida em setembro, por causa da escassez de chuva. Apenas cinco hectares deram frutos, impactando diretamente a subsistência da comunidade. O cultivo de milho é voltado tanto para a venda quanto para o consumo dos moradores e dos animais.

“Mediante ao fato que vem acontecendo, a gente, como liderança, se sente muito preocupado, porque vem afetando o desenvolvimento da nossa comunidade, das nossas criações, da nossa produção. E, diante de um trabalho bem árduo, numa plantação de grande lavoura, a gente tem uma perda dessa, a gente fica preocupado e fica triste”, lamenta seu Gecivaldo Aleixo, tuxaua da Serra do Truaru.

WhatsApp Image 2026-10-15 at 10.25.30.jpeg WhatsApp Image 2026-10-15 at 10.33.10 (1).jpeg WhatsApp Image 2026-10-15 at 10.33.10.jpeg
Equipe DGTAMC nas instações do sistema de bombeamento de água. Fotos: Divulgação.

Ainda segundo o tuxaua, além do impacto no cultivo de milho, a seca também já afeta outras produções, como a mandioca e a piscicultura.

“Quem tá produzindo [mandioca] tem que fazer de imediato [a colheita], porque senão pode perder também devido à seca. Nós esperávamos um inverno chuvoso, mas infelizmente não aconteceu. A estiagem começou antes do previsto, as fontes também já começaram a baixar de nível antes do previsto. E sem contar também com os alevinos (peixes em estágio juvenil), que nós tínhamos o plano de colocar eles nos açudes, mas, com receio de os açudes secarem, a gente não executou este projeto de criação de peixes”, relata.

Além das perdas na produção, a comunidade também se prepara para enfrentar os riscos de queimadas durante o período de estiagem. Segundo Gecivaldo, a brigada voluntária da comunidade participou do planejamento de uma queima prescrita, com apoio do CIR, como medida de prevenção. Até o momento em que esta reportagem estava sendo escrita, a comunidade já se encontrava com 95% da queima prescrita concluída.

As comunidades Serra do Truaru e Macaíba estão localizadas nas terras indígenas Serra da Moça e Truaru da Cabeceira, que estão entre as 21 terras indígenas de Roraima classificadas com seca grave, segundo levantamento da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab).

Diante desse cenário, o Conselho Indígena de Roraima (CIR), por meio do Departamento de Gestão Territorial, Ambiental e Mudanças Climáticas (DGTAMC), implementou um sistema de bombeamento de água em poço Amazonas, abastecido por energia solar. A iniciativa beneficiou mais de 300 pessoas, de 101 famílias, sendo 94 da comunidade Serra do Truaru e sete da comunidade Macaíba, na região Murupu.

WhatsApp Image 2026-10-15 at 10.34.08 (3).jpeg WhatsApp Image 2026-10-15 at 10.34.08 (2).jpeg WhatsApp Image 2026-10-15 at 10.34.08.jpeg WhatsApp Image 2026-10-15 at 10.34.08 (1).jpeg WhatsApp Image 2026-10-15 at 10.34.07 (2).jpeg WhatsApp Image 2026-10-15 at 10.34.07 (1).jpeg
Equipe do DGTAMC e lideranças durante preparação e instalação dos sistemas. Fotos: Divulgação.

As instalações dos sistemas de abastecimento estão previstas nos Planos de Adaptação Indígena de Enfrentamento às Mudanças Climáticas das comunidades indígenas e foram realizadas na sexta-feira (9) de outubro pelos engenheiros agrônomos do CIR Renan Oliveira, Raiovane Araújo Montenegro e Pedro Nascimento.

Renan Oliveira destacou que a medida é necessária para garantir a autonomia hídrica e energética emergencial das famílias diante do período de estiagem e seca que atinge a etnorregião Murupu.

“A implementação deste sistema foi vital para reduzir a dependência das famílias de fontes externas de água e garantir o abastecimento da comunidade diante da severidade climática e da seca extrema”, explicou.

Roraima concentra a maior parte das terras indígenas da Amazônia Legal que enfrentam estiagem mais severa. São elas: Ananás, Aningal, Anta, Araçá, Barata Livramento, Boqueirão, Cajueiro, Canauanim, Malacacheta, Mangueira, Manoa/Pium, Moskow, Muriru, Pium, Ponta da Serra, Raimundão, Santa Inez, Serra da Moça, Sucuba, Tabalascada e Truaru.

Ainda conforme o levantamento, oito terras indígenas do estado também se encontram com classificação de seca moderada, enquanto quatro apresentaram seca leve.

Planos de Adaptação Indígena

Para diminuir os impactos da crise climática nos territórios, o Conselho Indígena de Roraima (CIR) atua com várias ações. Uma delas é a implementação dos Planos de Adaptação Indígena. Os documentos são instrumentos estratégicos elaborados a partir das necessidades identificadas pelos próprios moradores, permitindo o planejamento de medidas adequadas à realidade de cada comunidade.

“Os Planos de Adaptação são a ferramenta que nós construímos a partir do conhecimento dos povos indígenas, da percepção dos povos indígenas, trabalho com homens, mulheres e jovens, crianças, na construção desses planos. Porque eles são um mecanismo para a gente discutir, principalmente dentro das convenções do clima, da biodiversidade, da desertificação, mas também são mecanismos onde a gente busca implementar nas nossas comunidades”, explica Sineia do Vale, coordenadora do Departamento de Gestão Territorial, Ambiental e Mudanças Climáticas do CIR.

Nos documentos também são registradas as mudanças climáticas observadas pelos moradores, como estiagens, secas e alterações no regime de chuvas, além de estabelecer medidas para minimizar os impactos da crise climática nos territórios.

WhatsApp Image 2026-10-15 at 10.34.07.jpeg WhatsApp Image 2026-10-15 at 10.33.11 (1).jpeg WhatsApp Image 2026-10-15 at 10.33.11 (2).jpeg WhatsApp Image 2026-10-15 at 10.33.10 (3).jpeg WhatsApp Image 2026-10-15 at 10.33.11.jpeg WhatsApp Image 2026-10-15 at 10.33.10 (2).jpeg
Equipe do DGTAMC e lideranças durante preparação e instalação dos sistemas. Fotos: Divulgação.

A construção dos Planos de Adaptação Indígena, também conhecidos como Planos de Enfrentamento às Mudanças Climáticas, começou a partir de 2010. Ao todo, foram elaborados, em conjunto com as comunidades, cinco planos: na região Serra da Lua, na T.I. Raposa Serra do Sol, na região do Amajari e na região Murupu. Segundo Sineia, a expectativa é que seja construído um plano para cada região e terra indígena.

Os Planos de Adaptação Indígena, também chamados de Planos de Enfrentamento às Mudanças Climáticas, são referências em nível estadual, nacional e internacional, servindo como modelo para que povos indígenas de outros locais possam construir seus planos de acordo com a realidade enfrentada nos territórios.

As instalações dos sistemas de abastecimento de água previstas no plano da região Murupu foram possíveis devido ao apoio dos parceiros Nia Tero e Pawanka Fund. Além dessa implementação, também estão previstas mais duas, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol e na região do Amajari, que serão realizadas em parceria com a Agência Dinamarquesa de Desenvolvimento Internacional (Danida).

 

Compartilhar