Intercâmbio internacional realizado pelo CIR, em parceria com a Nia Tero e a Tenure Facility, fortalece a troca de experiências entre povos indígenas do Brasil, da Guiana e do Suriname sobre proteção territorial

Por Helena Leócadio

Os participantes compartilharam conhecimentos sobre monitoramento, governança e estratégias de autonomia dos territórios indígenas.

“Para nós, povos indígenas, não existem fronteiras. Independentemente do país, lutamos pelos mesmos objetivos. Aqui, vamos compartilhar a maneira como atuamos, como fortalecemos a autonomia das comunidades indígenas e como lutamos pela garantia dos nossos direitos.” Assim, o Tuxaua Geral do Conselho Indígena de Roraima (CIR), Amarildo Macuxi, iniciou sua fala de boas-vindas aos participantes do Intercâmbio sobre Proteção Territorial, que reuniu delegações indígenas do Brasil, da Guiana e do Suriname. Com o tema “Tecnologias Indígenas e Soluções Emergentes”, o encontro ocorreu de 26 a 30 de outubro e proporcionou um espaço de diálogo, escuta e troca de experiências entre povos indígenas que desenvolvem estratégias próprias de proteção e gestão de seus territórios.

Realizado pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR), em parceria com a Nia Tero e a Tenure Facility, o intercâmbio foi idealizado para fortalecer a articulação entre os povos indígenas e ampliar a troca de conhecimentos sobre governança, monitoramento territorial e uso de ferramentas tecnológicas aliadas aos saberes tradicionais.

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Participantes durante atividade em grupo, em debate sobre visita as comunidades indigenas Sucuba e Serra da Moça. FOTOS: Charles Taurepang - Ascom CIR

“Essa iniciativa surgiu a partir de uma aliança entre a Nia Tero e a Tenure Facility para realizar o intercâmbio nos países onde temos atuação: Brasil, Guiana e Suriname. A proposta surgiu de uma demanda dos parceiros da Guiana e do Suriname, que queriam conhecer, aprender, ensinar e promover essa troca entre vários povos. Desde o primeiro dia, tem sido incrível acompanhar todas as informações e trocas. A ideia é justamente elevar as tecnologias indígenas e integrá-las às tecnologias ocidentais. O CIR foi contemplado pelas iniciativas que vocês desenvolvem nos territórios. Para a Nia Tero, é muito claro que os territórios indígenas não são apenas pequenos espaços delimitados por países. Pelo contrário, são transfronteiriços e acolhem todas as iniciativas voltadas ao bem viver dos povos indígenas”, destacou Nara Baré, diretora da Nia Tero no Brasil.

“Para nós, é muito importante estar em campo junto com o CIR para ver a efetividade dos projetos que desenvolvemos e apoiamos. Aqui, todo o processo que realizamos por trás dos projetos acaba se materializando. É o momento em que conseguimos visualizar, na prática, os resultados dessas iniciativas”, afirmou o consultor sênior da Tenure Facility, Davi Pereira.

O intercâmbio também possibilitou conhecer diferentes realidades e desafios enfrentados pelos povos indígenas participantes, valorizando os conhecimentos construídos e transmitidos ao longo de gerações. Para o Tuxaua Geral do CIR, a troca entre os próprios povos indígenas representa uma oportunidade de fortalecer alianças e contribuir para a defesa dos direitos e da autonomia dos territórios.

“Esse intercâmbio está sendo muito importante. Podemos ver como nossos parentes de outros países atuam na defesa dos territórios e na produção das roças. O CIR tem uma grande experiência e trabalha com vários projetos nos territórios, como pecuária sustentável, piscicultura, preservação das sementes tradicionais, cultivo de banana e castanha na região Wai Wai, além da proteção territorial. Estamos aqui repassando esses conhecimentos e mostrando como o CIR atua na defesa dos direitos dos povos indígenas, para garantir que as comunidades continuem trabalhando de forma sustentável”, destacou Amarildo Macuxi.

Durante os primeiros dias de atividades, as delegações conheceram experiências desenvolvidas pelo CIR e por suas comunidades, com destaque para as estratégias de monitoramento territorial, a implementação dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs), as economias indígenas e o uso de ferramentas para acompanhar as condições climáticas, identificar focos de incêndio e fortalecer a vigilância territorial.

As apresentações também abordaram a soberania dos dados indígenas e a utilização de tecnologias no monitoramento ambiental. A troca de conhecimentos permitiu que os participantes compartilhassem suas próprias experiências e refletissem sobre como diferentes ferramentas podem contribuir para a proteção dos territórios, respeitando os conhecimentos e as formas de organização de cada povo.

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Brigadistas durante demonstração de Queima Controlada - Comunidade Serra da Moça. FOTOS: Charles Taurepang - Ascom CIR

As atividades foram conduzidas pelo Departamento de Gestão Territorial, Ambiental e Mudanças Climáticas do CIR, coordenado pela gestora ambiental Sineia do Vale, do povo Wapichana.

“Roraima se tornou um exemplo de implementação de PGTA, de plano de adaptação, das brigadas femininas e de várias outras iniciativas. Esse trabalho vai sendo desenvolvido, informado e comunicado. Os parentes de outros países se interessaram em conhecer nossas experiências, e chegamos a essa metodologia de participação. Eles estão levando muitos conhecimentos sobre uma organização de 56 anos, sobre como ela se organiza, como foi a caminhada de luta e conquista dos territórios e como funciona para fortalecer a autonomia dos povos indígenas daqui. Essa troca mútua vai fortalecer a todos. Eles compartilharam que não têm territórios reconhecidos em seus países, mas desenvolvem metodologias semelhantes às nossas, respeitando a realidade de cada povo. Essa troca é valiosa”, expressou a coordenadora.

Para facilitar o diálogo entre os expositores e os participantes, o intercâmbio contou com tradução realizada pela equipe do Instituto Dialética.

Conhecimentos compartilhados na prática

A programação contou com rodas de conversa, apresentações de experiências, atividades sobre soberania de dados e visitas às comunidades indígenas Sucuba, na região Alto Cauamé, e Serra da Moça, na região Murupú.

Na comunidade indígena Sucuba, na região Alto Cauamé, os participantes conheceram iniciativas desenvolvidas a partir do Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA). Entre as experiências apresentadas estavam o sistema de irrigação por meio de painéis solares e a atuação da brigada indígena feminina Pataxibas, que reúne mulheres na prevenção e no combate aos incêndios florestais.

Cameron Ellis, diretor de Ciências de Campo da Rainforest Foundation US, acompanhou as atividades e contribuiu para o diálogo sobre as experiências compartilhadas durante o encontro.

“Está sendo um intercâmbio de aprendizagem fantástico. Nós, como instituição, trabalhamos com o CIR há muitos anos e temos ficado muito impressionados com o trabalho técnico que o CIR realiza, assim como com sua liderança em uma área tão grande de atuação. Muitos dos nossos parceiros, representantes dos conselhos distritais de APA e Guiana, que estão aqui hoje, também atuam em territórios muito grandes e enfrentam ameaças semelhantes. Eles compartilharam essas experiências, e acredito que é muito útil para as organizações da Guiana estarem aqui para ver como o CIR se organiza, se concentra e, principalmente, como as lideranças se organizam em um território amplo e com diversos desafios”, destacou Cameron.

A visita permitiu que as delegações conhecessem de perto as iniciativas desenvolvidas pela comunidade e dialogassem com as lideranças e os moradores sobre os desafios, os resultados e os conhecimentos envolvidos na implementação dos projetos.

No dia seguinte, a programação seguiu na comunidade indígena Serra da Moça, onde os participantes tiveram a oportunidade de conhecer outras experiências de organização comunitária e proteção territorial. A visita ampliou o diálogo sobre as diferentes estratégias desenvolvidas pelos povos indígenas de Roraima e possibilitou novas trocas entre as lideranças e as delegações internacionais.

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Participantes durante visita na roça do senhor Manelito, na comunidade Serra da Moça. FOTOS: Charles Taurepang - Ascom CIR

No local, os participantes conheceram o projeto familiar “Oásis Verde”, apoiado pelo Fundo Indígena Rutî. Na roça, conheceram o cultivo de bananas e a forma de trabalho conduzida pela liderança tradicional Manoelito Wapichana.

“Aqui, eu trabalho junto com meus filhos. Temos esse sistema de irrigação para o período do verão, que foi apoiado pelo Fundo Rutî. Planto feijão, mandioca, banana e outras coisas. Fico feliz que vocês vieram conhecer o meu trabalho”, disse Manoelito.

“A nossa visão de futuro é ver as comunidades indígenas com a autonomia fortalecida, com as iniciativas e a produção a todo vapor. Aqui, o apoio é para a bananicultura, mas existem outras regiões que trabalham com avicultura, piscicultura, artesanato, pecuária sustentável e outras iniciativas”, destacou o Tuxaua Geral do CIR, Amarildo Macuxi.

Os participantes do intercâmbio também esclareceram dúvidas sobre a produção de bananas, como a adequação do solo, o tempo de retorno do investimento e o funcionamento do projeto.

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Participantes durante visita na roça do senhor Manelito, na comunidade Serra da Moça. FOTOS: Charles Taurepang - Ascom CIR

No período da tarde, os brigadistas indígenas realizaram uma demonstração de queima controlada, acompanhada atentamente pelos participantes. Jonatas Firmino, supervisor das brigadas, destacou que compartilhar essa experiência contribui para fortalecer as ações desenvolvidas pelas organizações indígenas em seus países.

“Nós demonstramos nossa atuação em tempo real, para que eles tenham uma ideia de como é o trabalho de combate e prevenção junto com a comunidade. Esse é um pouco do nosso trabalho de campo durante o período de verão, com a queima controlada. É importante que não só os participantes vejam, mas também os apoiadores que investem na formação e nos equipamentos para nossas brigadas. Essa é uma forma de preservar nosso território”, explicou o supervisor.

Para os participantes da Guiana e do Suriname, conhecer as experiências desenvolvidas pelas comunidades indígenas de Roraima também representou uma oportunidade de refletir sobre os desafios enfrentados em seus próprios territórios e sobre as possibilidades de fortalecer suas estratégias de organização e proteção territorial.

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Participantes durante debate e visita na comunidade Sucuba. FOTOS: Charles Taurepang - Ascom CIR

Kid James, representante do Conselho Distrital do Sul do Rupununi, comentou sobre a atividade e comparou os desafios semelhantes vivenciados atualmente.

“Temos climas e experiências semelhantes, assim como desafios relacionados ao fogo. Uma das coisas que percebemos é que precisamos realmente começar a gerenciar o fogo dentro das nossas paisagens, porque as mudanças climáticas estão impactando nossas terras e lagoas, e o lugar está ficando mais quente. Essa demonstração é extremamente importante. Vamos levar essa experiência para nossa base, promover uma discussão e ver como podemos fortalecer os laços e construir nossa capacidade para, um dia, ter e fazer o que está acontecendo aqui com os brigadistas”, disse a liderança do Sul do Rupununi.

“Visitamos dois territórios e foi incrível ver como as diferentes comunidades trabalham juntas e os diferentes planos que vêm implementando. Tem sido incrível compará-los com a Guiana, o Suriname e o Brasil, observando o que as comunidades indígenas estão experimentando, como estão monitorando e defendendo seus territórios e lutando por seus direitos”, concluiu Luciano Doest, coordenador do Sistema de Monitoramento Biocultural do Mulokot.

Ao promover espaços de escuta e aprendizagem, o CIR fortalece conexões entre comunidades e organizações indígenas, contribuindo para a construção coletiva de estratégias de proteção territorial, autonomia e defesa dos direitos indígenas.

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Participantes durante visita aos projetos, na comunidade Sucuba. FOTOS: Charles Taurepang -  Ascom CIR

Participaram do intercâmbio representantes das organizações indígenas North Pakaraimas, South Rupununi e Amerindian Peoples Association, da Guiana; Mulokot e VIDS, do Suriname; e do Conselho Indígena de Roraima (CIR), do Brasil.

Em uma das falas durante o intercâmbio, Nara Baré destacou: “Não precisamos aprender com o pessoal de fora, podemos aprender entre nós mesmos, indígenas”. A reflexão reforça o sentido do encontro, que busca reconhecer os conhecimentos dos povos indígenas, valorizar suas experiências e fortalecer a construção de soluções coletivas para a proteção de seus territórios.

Ao final do intercâmbio, os participantes se dedicaram a refletir sobre os aprendizados da semana, identificar possibilidades de colaboração e construir encaminhamentos coletivos para o futuro.

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Recepção dos Participantes e visita aos projetos na comunidade Sucuba. FOTOS: Charles Taurepang - Ascom CIR

A equipe de Comunicação do CIR, composta pelas jornalistas Helena Leocádio e Allyne Bentes, pelo fotojornalista Maciel Macuxi, pela social media Luara Sapará e pelo assessor de imprensa e coordenador do Departamento de Comunicação, Charles Taurepang, participou do intercâmbio realizando a cobertura das atividades durante todos os dias do encontro.

Revisão: Charles Taurepang- Ascom CIR

Fotos: Charles Taurepang – Ascom CIR

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