“Falou que eu ia queimar tudo”: em meio a preconceito, mulheres indígenas avançam na área elétrica de Roraima

Por Allyne Bentes.

Capacitação promovida pelo CIR em parceria com o ISA e o Centro Tecnológico Solares, reuniu participantes de oito etnorregiões do estado e busca fortalecer a autonomia financeira das mulheres indígenas.

Quando uma mulher escolhe trabalhar em uma área historicamente dominada por homens, os desafios vão além da formação profissional. Para a eletricista Graciele da Silva Costa, 22 anos,  indígena do povo Macuxi e moradora da  comunidade Pium, na região Tabaio, em Roraima, o preconceito já apareceu quando ela teve a oportunidade de colocar em prática os conhecimentos adquiridos anteriormente no curso de instalações elétricas ofertado pelo Conselho Indígena de Roraima em 2024.

“Na minha comunidade tem essas pessoas que tem preconceito da mulher tá nessa área. Inclusive quando eu fui chamada por uma parente minha mesmo para tá fazendo a instalação na casa dela, o marido não quis, porque falou que eu ia queimar tudo, que eu não sabia. E eu peguei meu certificado e falei: "Ó, eu fiz o curso". Foi justamente para isso que eu fiz o curso, pra não ter esse problema de queimar as coisas”, relata a eletricista.

A experiência de Graciele é um exemplo dos desafios enfrentados diariamente por mulheres indígenas no mercado de trabalho e mostra como, mesmo após a formação profissional, suas competências ainda são questionadas por causa do gênero. 

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Mulheres durante as atividades práticas do curso de aperfeiçoamento em instalações elétricas. Fotos: Maciel Makuxi - ASCOM CIR

Segundo pesquisa realizada em 2020 pelo Instituto Patrícia Galvão, em parceria com o Instituto Locomotiva, 76% das mulheres entrevistadas relataram já ter sofrido algum tipo de violência, assédio ou constrangimento no ambiente de trabalho.  Na área elétrica, a desigualdade de gênero também se reflete na participação feminina: o estudo “Mulheres no Setor Elétrico Brasileiro”, da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), aponta que as mulheres representam cerca de 20% dos profissionais nas instituições do setor e estão mais concentradas em áreas administrativas, enquanto os homens predominam nas atividades operacionais. 

“Que nenhuma de nós, das mulheres eletricistas, possa desistir, porque isso é muito importante. Até porque, essa área é mais vista para homens, e nós estamos fazendo a diferença de estarmos fazendo esse curso. Que ninguém desista daqui pra lá e que a gente possa mostrar que a gente é capaz de tá em qualquer lugar, em qualquer área”, torce Graciele.

Para aumentar essas possibilidades, quinze mulheres indígenas de oito etnorregiões de Roraima participaram  do curso de aperfeiçoamento em instalações elétricas promovido pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR). A formação começou em 13 de outubro e foi concluída no dia 21 no Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol (CIFCRSS), localizado na comunidade indígena Barro, região Surumu.

Com carga horária de 40 horas, o curso “NR-10 com atualização e aperfeiçoamento técnico em instalação elétrica e energia solar para mulheres indígenas" é uma iniciativa pioneira do CIR, por meio do Departamento de Mulheres Indígenas, voltada ao fortalecimento da autonomia das mulheres e à ampliação de suas oportunidades profissionais.

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Mulheres Indígenas durante o curso, nas atividades práticas. Fotos: Maciel Makuxi - ASCOM CIR

Segundo a tuxaua do Movimento de Mulheres Indígenas e coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas do CIR, Kelliane Wapichana, a formação é fundamental para que as participantes tenham mais segurança para atuar na área e ocupem espaços profissionais historicamente dominados por homens.

“As mulheres podem ocupar os espaços que elas quiserem. Ainda mais por serem mulheres indígenas, nós somos capazes de fazer essas formações e levar essa transformação para dentro dos territórios”, afirma a tuxaua Kelliane Wapichana.

O curso dá continuidade à formação de eletricistas prediais realizada entre julho e agosto de 2024, quando as participantes receberam 120 horas de capacitação. Em outubro de 2025, elas também tiveram uma capacitação complementar, no lago Caracaranã, onde aprenderam a instalar o sistema solar fotovoltaico. 

A necessidade de uma nova etapa surgiu após parte das mulheres relatarem dificuldades para ingressar no mercado de trabalho e apontar dúvidas sobre os conteúdos aprendidos anteriormente, especialmente pela falta de oportunidades para colocar os conhecimentos em prática.             

“A revisão tá sendo ótima, até porque também tinha umas instalações que eu tinha esquecido como fazer, inclusive a da bomba de água, essa eu ainda não tinha feito em nenhum lugar depois do primeiro curso. Mas a revisão tá sendo super importante, para a gente relembrar de tudo que a gente já fez também no primeiro curso” , compartilha  Graciele Macuxi.

Desta vez, a proposta priorizou a revisão prática dos procedimentos e das técnicas de instalação elétrica, com o objetivo de preparar as participantes para exercer a profissão nas comunidades indígenas.

“A pessoa que não pratica vai esquecendo aos poucos. Como existe a necessidade dessa profissional nas comunidades, surgiu a oportunidade de fazer uma revisão para que elas abracem de vez essa carreira e sejam as profissionais da elétrica nas comunidades”, explica Paulo Soares, um dos instrutores da capacitação.

Professor do Instituto Federal de Roraima (IFRR) há 40 anos e voluntário na Universidade Federal de Roraima (UFRR), na área de engenharia elétrica e eletroeletrônica, Soares destaca que o conteúdo foi adaptado às necessidades das comunidades indígenas, considerando as condições em que as profissionais poderão realizar os serviços. 

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Mulheres Indígenas durante o curso, nas atividades práticas. Fotos: Maciel Makuxi - ASCOM CIR

“São pessoas que estão isoladas de um meio de comunicação mais amplo e, por isso mesmo, têm que ter um conhecimento bem mais apurado de como executar as instalações elétricas prediais”, afirma.

Dividida em três módulos, NR-10, energia solar e instalações elétricas prediais e residenciais, a formação abordou procedimentos de segurança e técnicas necessárias para a execução de instalações de baixa tensão. Entre as atividades práticas, as participantes realizaram ligações de dimmer, cigarra e three-way, além de aprenderem a montar um sistema com relé.

As aulas também foram ministradas pelos instrutores Yara Brito e Paulo Araújo, responsáveis, respectivamente, pelo primeiro e pelo segundo módulo.

O professor Paulo Soares ressalta que os cuidados com a segurança são especialmente importantes em construções com materiais de fácil combustão, como as coberturas de palha, comuns em algumas comunidades indígenas.

“As instalações elétricas prediais visam, de acordo com as normas pertinentes, executar instalações bem dimensionadas e protegidas, que diminuam o risco de incêndio e de acidentes físicos”, explica.

A aplicação correta das técnicas e o cumprimento das normas de segurança são fundamentais para reduzir os riscos durante a execução dos serviços, especialmente em residências e espaços comunitários.

Além de aprimorar os conhecimentos técnicos, a iniciativa busca ampliar a participação das mulheres indígenas na realização de serviços necessários às próprias comunidades e criar oportunidades para que elas tenham uma fonte de renda.

A experiência acumulada em formações anteriores já resultou em instalações realizadas pelas participantes em diferentes localidades de Roraima. Em 2024, mulheres indígenas executaram a instalação elétrica de um espaço destinado à produção de artesanato e outros trabalhos na comunidade Canauanim. Em 2025, também realizaram a instalação elétrica da Casa da Cultura da Mulher, na comunidade Camará, e instalaram um sistema de energia solar para o funcionamento de uma bomba-d'água no lago Caracaranã.

Segundo Paulo Soares, a intenção é criar novas oportunidades para que as eletricistas apliquem os conhecimentos adquiridos em novas instalações e reformas de edificações nas comunidades, em articulação com o CIR e as instituições parceiras.

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Mulheres durante a formação em eletricidade e atividades práticas. Fotos: Maciel Makuxi - ASCOM CIR

“Além de agregar conhecimento, a ideia é que isso também gere renda, porque elas terão uma ferramenta bastante poderosa, que é o conhecimento das instalações elétricas”, afirma o professor.

A formação prepara as participantes para realizarem instalações elétricas de baixa tensão, comuns em residências, pequenos estabelecimentos comerciais e prédios comunitários. A expectativa é que essa qualificação também possa abrir oportunidades de trabalho junto à empresa responsável pelo fornecimento de energia elétrica no estado ou em outras instituições do estado.

Como é o caso da eletricista Kessia Rodrigues, da comunidade indígena Malacacheta, na região Serra da Lua. Kessia participou das três capacitações  e agora é, há um mês,  colaboradora do CIR, atuando na instalação de painéis solares dentro das comunidades. 

“Estou trabalhando nas comunidades, com projetos voltados diretamente para área indígena e principalmente para as mulheres e jovens. [...] E para mim é uma grande satisfação porque sou a primeira mulher eletricista indígena [do CIR] a fazer uma instalação de painel solar numa comunidade indígena”,  relata.

As 15 participantes são provenientes de oito etnorregiões de Roraima: Tabaio, Amajari, Serras, Serra da Lua, Baixo Cotingo, Surumu, Trombetas-Mapuera, Alto Cauamé e alunos do Centro Indigena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol (CIFCRSS), também participaram da atividade.

A proposta inicial era garantir a participação de duas representantes de cada região. No entanto, dificuldades logísticas e a indisponibilidade de algumas mulheres impediram que todas as vagas previstas fossem preenchidas conforme o planejamento.

Para as participantes, a formação também representou a oportunidade de conviver com mulheres de diferentes comunidades e compartilhar experiências relacionadas à realidade de cada território e ao trabalho de eletricista.

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mulheres durante atividade prática. Fotos: Maciel Makuxi - ASCOM CIR

“É difícil ficar longe da família, porque minha mãe também não está muito bem de saúde, então foi difícil sair de casa e deixar ela. Mas, está sendo uma experiência boa, conviver com as mulheres de outras aldeias, até porque a gente conversa sobre o que tá sendo repassado aqui sobre as instalações, às vezes algumas não entenderam muito bem, e a gente tem essa conversa pra poder tá explicando uma pra outra”, relata Graciele Macuxi. 

O curso foi promovido pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR), em parceria com o Centro Tecnológico Solares e o Instituto Socioambiental (ISA). A iniciativa dá continuidade ao trabalho conjunto das instituições para formar mulheres indígenas eletricistas.

“O plano é esse, estudar cada vez mais, ter esse conhecimento aqui, e não só tá na base, mas  também sair em busca de algum trabalho nessa área”, compartilha.

Fotos: Maciel Makuxi - ASCOM CIR

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