Por: Charles Taurepang
A formação, realizada na Universidade de Oxford, reúne brigadistas das regiões Wai Wai, Surumu, Alto Cauamé e Murupu.
O conhecimento de quem vive e protege o território agora se encontra com novas ferramentas tecnológicas em uma experiência internacional. Em um espaço totalmente diferente do habitual, longe da rotina e da família, seis mulheres indígenas de Roraima têm um objetivo em comum: adquirir conhecimentos para fortalecer as ações de preservação e proteção dos territórios indígenas. Elas foram enviadas pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR) para participar de uma formação na Universidade de Oxford, na Inglaterra.
A formação está vinculada ao projeto Community-Driven Amazon Resilience Strategy (Estratégia de Resiliência da Amazônia Liderada pelas Comunidades), desenvolvido pelo Woodwell Climate Research Center, com financiamento da Fundação Mott e apoio da Universidade de Oxford. A iniciativa busca fortalecer conhecimentos e ampliar o acesso a ferramentas geoespaciais que contribuam para a prevenção e o enfrentamento dos incêndios florestais, o monitoramento de ameaças e o planejamento de ações de proteção territorial.
Durante a formação, as participantes desenvolvem atividades voltadas à identificação de ameaças aos territórios, ao planejamento de estratégias de proteção e ao uso de ferramentas geoespaciais. As aulas incluem exercícios práticos de Sistema de Informação Geográfica (SIG), com elaboração de mapas de focos de incêndio e identificação de outras ameaças territoriais, além da avaliação de tecnologias que possam contribuir para a gestão e o monitoramento das terras indígenas.
Esse processo de fortalecimento dos conhecimentos já vinha sendo desenvolvido pelo CIR em Roraima. Em setembro de 2025, a instituição promoveu, no Lago Caracaranã, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, o Curso Básico de Sistema de Informação Geográfica (SIG), em parceria com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). A atividade reuniu 20 brigadistas indígenas de Roraima e Mato Grosso do Sul, sendo 18 mulheres e dois homens, além de comunicadores da Rede Wakywaa. (BRIGADISTAS E COMUNICADORES INDÍGENAS APRENDEM A USAR FERRAMENTAS TECNOLÓGICAS PARA PROTEGER E DEFENDER O TERRITÓRIO)
Uma das participantes daquela capacitação, que agora está na Inglaterra, é Marivalda Tomaz, brigadista indígena da comunidade Sucuba, região Alto Cauamé. Integrante da Brigada Comunitária Indígena Pataxibas, nome que significa Guerreiras do Fogo, ela faz parte de um grupo formado por mulheres Macuxi, Wapichana e Wai Wai que atua na prevenção e no combate aos incêndios florestais. Agora, em Oxford, Marivalda vivencia uma nova etapa de aprendizado, levando consigo a experiência construída na comunidade e a oportunidade de conhecer outras culturas e compartilhar os conhecimentos de seu povo.
“Está sendo uma experiência muito boa sair do nosso território, da nossa comunidade. É uma viagem tão longa para chegar a outro país, descobrir outras culturas totalmente diferentes da nossa. Aqui estamos aprendendo muita coisa, compartilhando também nosso conhecimento, trazendo nossas dificuldades, mas também as soluções que encontramos”, relata.
Entre os aprendizados, a brigadista destaca a criação de mapas como uma ferramenta que vai além da identificação de áreas atingidas pelo fogo. Para ela, os mapas também permitem registrar a vida e as atividades desenvolvidas pelas comunidades, reconhecendo a relação das famílias com o território.
“Essa oficina de criação de mapas está sendo muito importante, pois no mapa a gente pode contar uma história. Tenho aprendido muito sobre isso, podemos identificar onde é a roça de fulano, o que ele produz, onde tem banana, identificar pelo território o que se cultiva ali”, explica Marivalda.
A experiência também representa uma oportunidade de inspirar outras mulheres indígenas a ocuparem espaços de formação e troca de conhecimentos. Ao falar sobre sua participação, Marivalda destaca a importância do empoderamento feminino, de acreditar nas próprias capacidades e de fortalecer a união entre as mulheres que atuam na proteção territorial.
“Que essa viagem também sirva de inspiração para outras mulheres, que não desistam dos sonhos, que podemos ir mais além do que a gente pensa. Mesmo com nossas dificuldades, precisamos acreditar nos nossos sonhos, que nós somos capazes. Como brigadista da Pataxibas, é muito importante estar nesses espaços, pois fortalece a nossa união e a valorização dos povos indígenas”, afirma.
Ana Paula Wapichana, coordenadora de Brigadas do CIR, também participa da formação. Para ela, o intercâmbio é uma oportunidade de aprimorar conhecimentos que poderão ser aplicados diretamente no trabalho desenvolvido nos territórios, especialmente na elaboração de mapas e relatórios que auxiliem no planejamento das ações das brigadas.
“Está sendo essencial essa formação para estarmos aprimorando esses conhecimentos, já que nós estamos trabalhando com mapas, aprendendo como criá-los, as áreas que queremos mapear, para construir nossos relatórios, até mesmo para as áreas de queima prescrita, onde podemos estar mapeando o que tem em nosso território”, explica Ana Paula.
O uso do Sistema de Informação Geográfica permite reunir, organizar e analisar informações sobre os territórios. Na prática, essas ferramentas podem auxiliar na identificação de áreas vulneráveis aos incêndios, no acompanhamento da ocorrência e da evolução do fogo, no mapeamento de áreas atingidas e no planejamento de ações de prevenção e combate. Quando associadas aos conhecimentos tradicionais e à experiência das comunidades, também contribuem para que os próprios povos indígenas ampliem sua autonomia na gestão e no monitoramento de suas terras.
A advogada indígena Fernanda Félix também integra a delegação e participa da formação. Para ela, a iniciativa fortalece o diálogo entre os povos indígenas e as instituições científicas, além de evidenciar a atuação das mulheres na defesa dos territórios.
“É importante destacar que a iniciativa fortalece o intercâmbio de conhecimentos entre os povos indígenas e instituições científicas, contribuindo para ampliar as estratégias de prevenção e enfrentamento dos incêndios florestais na Amazônia. A participação das mulheres indígenas também evidencia o protagonismo das brigadistas na defesa dos territórios e na construção de respostas aos desafios climáticos”, afirma Fernanda Wapichana.
A iniciativa foi idealizada pela cientista Dra. Manoela S. C. Machado e conta com a participação de pesquisadores e profissionais, entre eles o Dr. Ray Pinheiro, cientista do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM); o Dr. Kylen Solvik, cientista da Universidade Columbia; e Delaney Demaret, coordenadora de projetos em Oxford.
Entre as participantes do intercâmbio estão quatro brigadistas indígenas: Aniaci Wai Wai, da região Wai Wai; Khysila Kallyny Wapichana, da região Murupu; Marivalda Tomaz Wapichana, da região Alto Cauamé; e Rosilaine da Silva Macuxi, da região Surumu. A delegação também conta com Ana Paula Levi, do povo Wapichana, coordenadora de Brigadas do CIR, e Fernanda Félix, do povo Wapichana e advogada da instituição. O CIR também está representado por Ayrton Cláudio, assistente ambiental do Departamento de Gestão Territorial, Ambiental e Mudanças Climáticas, coordenado por Sineia do Vale.
A formação teve início em 23 de outubro e será encerrada nesta sexta-feira (6) de novembro. Após a programação na Universidade de Oxford, o grupo seguirá para Antalya, na Turquia, onde participará de atividades relacionadas à 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31).
Revisão: Helena Leocádio
Fotos: Sarah Ruiz