A violência contra a mulher é um problema universal que não faz distinção de classe, cor, religião ou raça. Ela está presente no cotidiano da maioria das mulheres, sejam elas indígenas ou não. Para combater esse mal, o Conselho Indígena de Roraima (CIR) realizou nos últimos dias 3 e 4, o II Seminário de Mulheres Indígenas da Região Alto Cauamé, com o tema "Não à Violência Contra a Mulher".
Durante dois dias, o seminário trouxe informações aprofundadas sobre a Lei Maria da Penha, os direitos da mulher, os diferentes tipos de violência, a conscientização e a prevenção da violência contra a mulher. Há muito tempo, o CIR através da secretaria do Movimento de Mulheres e do departamento Jurídico aborda o tema e busca alternativas para combater a violência contra as mulheres indígenas.
Apesar da resistência que surge devido à exposição da intimidade das mulheres e até mesmo das intimidações, o advogado indígena e assessor jurídico, Junior Nicacio, ressaltou a importância de incluir esse assunto nas reuniões comunitárias.
"Falar sobre a violência contra mulher, é algo que as pessoas evitam, porque expõe a intimidade da mulher, o que ela passa e vive em casa, algumas ficam com vergonha. Mas, isso deve fazer parte das reuniões comunitárias, é importante as lideranças levarem essas informações às comunidades", ressaltou Nicacio.
Como dinâmica da oficina, as participantes utilizaram cartolinas e pinceis, para documentar as violências recorrentes em suas comunidades e compartilhar ideias sobre como combatê-las. As principais formas de violência identificadas foram a física e verbal.
Como estratégias de combate, as mulheres propuseram palestras educativas para os homens e a presença de órgãos governamentais e não governamentais, bem como oficinas de capacitação.
O seminário foi uma iniciativa da vice-tuxaua da comunidade Raimundão II, Isabela Pereira, que destacou a importância de orientar as mulheres sobre a violência e como denunciá-la, mesmo em comunidades pequenas, como a sua, que abriga cerca de 45 moradores.
"Nossa comunidade é pequena , mas é cheia de problemas. Foi muito importante fazer o seminário aqui, as mulheres ouviram sobre as violência e como denunciar", concluiu a liderança.
O segundo dia do evento foi dedicado ao empoderamento feminino, com atividades que visavam elevar a autoestima das mulheres, incluindo maquiagem, esmaltação, design de sobrancelhas e tranças.
A secretária do Movimento de Mulheres Indígenas, Kelliane Wapichana, enfatizou a importância de fortalecer as mulheres por meio de ações como essa, a fim de incentivá-las a denunciar a violência e promover a mudança a partir delas mesmas.
"Empodere outras mulheres, que elas não fiquem com medo e nem acuadas, e sintam coragem para denunciar violência, a mudança inicia de nós mulheres",pontuou a secretária.
Kelliane,também explicou que fortalecer as mulheres com esse tipo de ação é uma das pautas da secretaria geral do movimento de mulheres indígenas.
"É fundamental levar essas orientações para dentro dos territórios indígenas, seja com seminário ou oficinas, falar para as mulheres sobre seus direitos, empoderamento é uma forma de prevenção" ressaltou Kelliane.
Para quem vive na correria, trabalhando fora,cuidando da casa e filhos, reservar um tempo, para ouvir sobre a violência contra a mulher e cuidar da beleza foi essencial, é o caso da Silmaria, moradora da comunidade indígena Raimundão I.
"A palestra foi importante, agora é o momento de cuidar de nós, muitas vezes nos levantamos já pensando na lida, na roça, nos afazeres de casa, e esquecemos de nós, mas, hoje é diferente pintar a unha, fazer a sobrancelhas arrumar o cabelo vai ajudar a nossa autoestima" , afirmou
Fotos: Ascom/CIR
Outro ato que marcou a finalização do II Seminário, foi a dinâmica de escrever numa camisa frases de incentivo e empoderamento à mulher a denunciar e dizer não a violência. Cada participante colocou na camisa de cor rosa palavras como "Você não está sozinha", "Em união somos mais fortes" e "Mulher solte sua Voz".
Os homens também participaram da atividade dizendo não à violência. Pintaram as mãos com tinta vermelha e deixaram sua marca no tecido, como uma assinatura de compromisso em combater à violência contra a Mulher.
Vê Mulheres, jovens e homens, reunidos para ouvir e tirar dúvidas sobre assuntos tão importantes para todos, foi gratificante para Valterlina Macuxi, coordenadora regional das mulheres do Alto Cauamé.
"Esse seminário trouxe muitas informações importantes, que serão compartilhadas com outras mulheres. Foi tudo gratificante, fiquei feliz vendo elas cuidando da beleza e da autoestima ", disse a coordenadora.
Cerca de 50 pessoas participaram do seminário que ocorreu pela primeira vez na comunidade Indígena Raimundão II. As próximas regiões a receber o seminário são Murupu e Raposa.