Mulheres indígenas, guerreiras incansáveis na luta pela “terra Sagrada”

Neste dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o Conselho Indígena de Roraima (CIR) homenageia todas as mulheres, em especial as guerreiras que lutam na coletividade pelos seus territórios.

Representada por duas lideranças do povo Macuxi, Nadis da Silva Neto de 49 anos e Madalena Macuxi, ambas contam a luta pela “Terra Sagrada” que vivenciam desde 2021 na Terra Indígena Pium, região Tabaio, Município de Alto Alegre.

A área que a comunidade ocupa é terra tradicional dos povos Wapichana e Macuxi há mais de 30 anos. Mas ficou de fora da demarcação por pressão de fazendeiros. Porém, é de uso coletivo, onde plantam, criam animais e uma parte é considerado área de preservação ambiental que hoje é chamado de “terra sagrada”. Os mais antigos relatam que não havia nenhum fazendeiro nessa área. Porém, nos últimos anos, um invasor alegou que aquela porção de terra é sua propriedade.

Dona Nádis conta que o nome “Terra Sagrada”, foi criada por Sandra Salustino, do povo Sapará, na época professora na comunidade Pium. Para os povos Macuxi e Wapichana da comunidade, a terra é sagrada, porque vai muito além do espaço geográfico. Dalí, os moradores vivem das suas roças e pescas. Antes de ser invadido, o local não era ocupado pelos moradores, para justamente manter a sua proteção.

“Na nossa Terra Sagrada, tem muitas plantas medicinais, por isso nomeamos assim. A terra é nossa. Quando o fazendeiro veio cercar, nós resolvemos ir tudo para lá. No dia 18 de abril, e no dia 19 foi feita a primeira casa. Assim, desde 2021 estamos até hoje na luta por este espaço. O primeiro confronto com a polícia foi dia 17 de agosto de 2021. Quando veio os policiais dizendo que um deles era o delegado. Aí, o segundo confronto foi quando vieram para derrubar as casas, no dia 1º de dezembro de 2021. Dia 4 de junho de 2022, foi quando eles queimaram as nossas casas, e o barracão da comunidade. Já estava quase tudo pronto e foi quando vieram, os jagunços do invasor e derrubaram e queimaram novamente”, contou.

Liderança Ângela Maria Raposo Batista Macuxi e dona Nádis da Silva Macuvi. Fotos: Rede Wakywai.

Nádis conta que os territórios indígenas são para que todos vivam, mantendo a cultura e garantindo os meios de existência e resistência. As riquezas naturais brotam do território, por isso a luta para proteger. Para ela, ter a sua casa invadida, o sentimento foi de medo e revolta.

“O sentimento foi de medo e raiva. Chegar assim invadir o que é nosso, sem ter direito de tirar as nossas coisas da nossa casa, senti muita raiva, e tristeza simultaneamente. De saber que você vai sair só com seus filhos e deixar ali seu trabalho tudo em vão. A Terra Sagrada é importante para mim, porque tem muitas plantas medicinais que a gente faz xarope, pomadas, para manter a nossa saúde. De lá que a gente tira palha para cobrir as nossas casas, que tiramos buriti para gente tomar suco, e lá também tem os nossos animais, criação de boi, cavalo e porcos. O mais importante, porque nós temos uma fonte que sai a água e essa água é milagrosa”. Frisou.

Dona Nádis e a dona Madalena, relatam as vivências que passaram e que ainda passam na terra sagrada. Vivem uma Resistência que já dura dois anos e 11 meses. Nos territórios indígenas as mulheres são lideranças que carregam no corpo a coragem e a resistência na luta pelos direitos para o bem viver da coletividade. Mantém o cuidado com o território, enfrentam tudo na defesa de sua mãe terra.

“É com orgulho que a gente luta. Eu como mulher indígena luta pelo bem-estar do meu povo. Para lutar tem que ter coragem. Nós ficamos muito triste ao ver a nossa terra sendo destruída, temos nossa fonte de água dos igarapés onde tomamos banho, pescamos, tiramos o alimento, a nossa saúde”, afirmou a liderança Madalena.

Assim como dona Nádis e dona Madalena, existem outras mulheres que lutam em defesa do seu território sagrado para que as presentes e as futuras gerações tenham onde viver e usufruir o que ela oferece.