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“A mulher pode chegar onde ela quiser”, diz a primeira mulher eleita Tuxaua em Roraima

Primeira tuxaua mulher, Diva da Siva

De cabelos grisalhos, palavra firme e também bem humorada, dona Diva da Silva Eurico, macuxi, 65 anos, moradora da comunidade raposa II, relata como foi assumir um dos cargos de maior responsabilidade na sua comunidade, a de Tuxaua.

Diva recorda sobre uma reunião comunitária que ocorreu no dia 7 de outubro de 1997, quando ela foi eleita como vice-tuxaua. Na época, o tio dela, o senhor Orlando de Souza que era o 1º tuxaua, ficou surpreso com a decisão. Permaneceu dois anos na vice-liderança, mas com os trabalhos que seu tio exercia fora da comunidade, assumiu no ano de 1999 a liderança como a primeira tuxaua.

Foi um acontecimento histórico para o movimento indígena de Roraima, porque pela primeira vez uma mulher era eleita como Tuxaua. Um espaço que era exclusivamente ocupado por homens, ela rompeu com a condição de invisibilidade das mulheres indígenas.

“As mulheres iam para reuniões ficavam em baixo das árvores. A gente começou a ver como era a vida das mulheres, como é hoje e como queremos amanhã. Os homens espantaram quando levantei para falar em uma reunião. Disseram, as mulheres querem mandar. Mas não era isso, nosso papel era apoiar os homens”, relatou dona Diva.

 “Nas assembleias o número de mulheres era reduzido e nós não tínhamos direito a voz e voto”, disse dona Diva.

Lembrou ainda que antes de ser tuxaua, participava das reuniões e das assembleias regionais e estaduais dos tuxauas. Era uma época de luta pela Raposa Serra do Sol e todas as viagens eram perigosas, por causa dos jagunços dos fazendeiros que ficavam no caminho.

“Eu passei no meio de armas. Certo dia, quando passamos perto da comunidade são Francisco avistamos pessoas armadas com cachorros. Estávamos indo para Surumu para assembleia dos agentes de saúde. Eu nunca tinha medo, sempre enfrentava”.

Bastante emocionada, lembrou da irmã Augusta e de suas companheiras. “Elas falavam para eu cuidar da minha saúde”. “Falavam você está doente. Mas eu respondia primeiro eu quero conseguir a demarcação da Raposa serra do sol, depois eu cuido da minha saúde”. 

“Eu não tinha sossego. Quando chegava da reunião dos catequistas, já me preparava para ir para outras assembleias. Eu não parava” lembrou dona Diva

Ela orgulha-se ao dizer que foi a primeira mulher a ser Tuxaua do Estado e por ter rompido essa barreira, por não ter medo de encarar os desafios. Segundo ela, sempre lutou para defender a terra indigena Raposa Serra do Sol e ajudou a fundar a Organização das Mulheres Indígenas de Roraima (OMIR), junto com dona Lindalva Macuxi e outras mulheres.

“Temos que ter vontade de fazer, porque se a gente tem vontade, a gente vai enfrentar. A mulher pode chegar onde ela quiser, basta querer”, finaliza dona Diva.

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