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Assembleia marca os 40 anos do projeto “Uma Vaca para o Índio” na Raposa Serra do Sol

Dezenas de lideranças indígenas, adultos, idosos e crianças participaram da Assembleia que celebrou os 40 anos do projeto “M Cruz – Uma vaca para o índio” na Raposa Serra do Sol / Foto: Emily Costa

Para marcar os 40 anos do projeto “Uma Vaca para o Índio”, iniciativa conjunta dos missionários da Consolata e das comunidades indígenas de Roraima para a criação comunitária de gado, os nove centros da etnoregião Serras da Terra Indígena Raposa Serra do Sol (TIRSS) se reuniram durante quatro dias na comunidade Maturuca, no Norte da emblemática TI de Roraima.

Com o tema “Presente de Deus aos povos indígenas, da opressão à libertação: 40 anos na defesa da nossa terra-mãe”, o evento ocorreu entre os dias 4 e 7 de fevereiro sob a cobertura de 18 mil palhas de buriti do Malocão da Homologação, no coração da comunidade. O projeto do gado nasceu no Maturuca, espalhou-se pela região das Serras e posteriormente foi expandido a outras regiões e terras indígenas.

Assembleia ocorreu no Malocão da Homologação, no Maturuca, Região das Serras da Raposa Serra do Sol / Foto: Emily Costa   

Durante o encontro, lideranças indígenas, mulheres, idosos, jovens e crianças relembraram a história e avaliaram os rumos da iniciativa que agora recebe aporte do projeto Bem-Viver, promovido pelo Instituto de Internacional de Educação do Brasil (IEB), Nature and Culture International (NCI), Conselho Indígena de Roraima (CIR) e financiamento da USAID com o objetivo de planejar a gestão do território e ações voltadas ao desenvolvimento sustentável, incluindo as melhores práticas para uma pecuária sustentável e certificada, aprimorando o manejo das pastagens nativas e organizando uma comercialização justa e solidária na T.I. Raposa Serra do Sol.

“Com este evento estamos abrindo o diálogo para as melhores práticas da pecuária sustentável, iniciando pela reafirmação do compromisso das comunidades indígenas na busca do Bem Viver”, avaliou Reinaldo Lourival, diretor da Nature and Culture International (NCI), que junto com a antropóloga Lêda Martins coordenam estes componentes do projeto Bem-Viver em estreita colaboração com o CIR.

Entre os presentes no encontro também estava o padre Giorgio Dal Ben, considerado articulador do projeto do gado, implantado pela Diocese de Roraima em 4 de fevereiro de 1980, data do primeiro lote de gado doado para a comunidade Maturuca. Há dez anos longe da região, ele foi recebido por uma multidão que celebrou seu retorno com cantos e danças tradicionais indígenas.

Padre Giorgio Dal Ben foi recebido com canto e danças tradicionais indígenas. /Foto: Emily Costa

“Foi uma recepção extraordinária para uma discussão muito importante”, disse o padre que viveu na região entre 1969 e 2008, exercendo papel fundamental na luta pela demarcação do território de 1,7 milhão de hectares em área contínua.

Os tuxauas Jacir de Souza e Orlando da Silva, importantes lideranças da região, também estiveram na assembleia. Eles concordam que o projeto de criação de gado é historicamente essencial para os indígenas, sobretudo no contexto das décadas de 70 e 80, quando a região esteve sob a intensa ameaça com a invasão de fazendeiros e garimpeiros.

Hoje com 72 anos, o tuxaua Jacir contou que cumpriu a arriscada tarefa de transportar as primeiras 52 reses (50 vacas e dois touros) entregues pelo projeto à comunidade Maturuca – uma viagem feita a pé que durou cinco dias.

“Arriscamos a nossa vida porque muitos fazendeiros não queriam que o gado viesse para cá. Foi muito difícil, mas conseguimos”, contou o tuxaua Jacir de Souza, ressaltando que o projeto foi peça-chave para a retomada das terras da Raposa Serra do Sol.

De acordo com Enock Taurepang, coordenador geral do Conselho Indígena de Roraima, o evento também foi importante para ajudar a traçar estratégias para o futuro do projeto nas comunidades, principalmente agora com o aporte do Bem-Viver.

“Não tem como imaginar a raposa sem o projeto ‘Uma vaca para o índio’, porque ele nos trouxe vida e esperança de que podemos, sim, ser os donos do nosso território, construir coisas a partir de uma iniciativa como essa que respeita nossa realidade”, disse, acrescentando o futuro dele “é uma responsabilidade de todos”.

O projeto “Uma vaca para o índio”

Implantado em 1980, o projeto “M Cruz – Uma vaca para o índio”, como é conhecido na comunidade, propôs a atividade pastoril coletiva e autônoma com o objetivo de promover a segurança alimentar, dar independência e fortalecer as comunidades indígenas da região, em um momento em que os não-índios haviam invadido a área.

Pela regra, o gado era entregue pela Diocese de Roraima sempre em lotes de 52 animais a determinada comunidade, que ficava com os animais por cinco anos. Após esse período, a comunidade repassava o mesmo número de animais a outra maloca, que também seguiu o mesmo ciclo, fortalecendo a união entre os povos e ao mesmo tempo gerando renda e garantindo a alimentação às comunidades.

Atualmente, só na região das serras são cerca de 16 mil cabeças de gado oriundas do M Cruz, alimentando-se das pastagens nativas dos Lavrados e das serras, e sendo a pecuária a principal atividade desenvolvida pelos cerca de 26 mil indígenas das etnias Macuxi, Wapichana, Ingarikó, Taurepang e Patamona, que vivem na Terra indígena localizada na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana.

Por Emily Costa

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